33 dados coletados: como usar IA no dia a dia com segurança

Como usar IA no dia a dia sem entregar seus dados depende de três decisões práticas: escolher o app certo, desligar o treinamento com suas conversas e parar de tratar o assistente como um cofre. Análise da Surfshark publicada em março de 2026 mostra que os dez apps de chatbot mais populares da App Store coletam, em média, 14 dos 35 tipos de dados possíveis, e o Meta AI reúne 33 de 35, quase tudo o que a loja da Apple permite listar. O número não é motivo para abandonar os assistentes — é o ponto de partida para usá-los com regras claras, organizadas no checklist deste guia.

O que os apps coletam

Os rótulos de privacidade da App Store permitem declarar até 35 categorias de informação, do histórico de navegação a dados biométricos. Nenhum app da análise escapa: todos coletam algum tipo de dado, 70% deles guardam localização e o Meta AI acumula quase 95% do total de categorias, sendo o único com dados da categoria financeira. Junto com o Gemini, também declara coletar informações sensíveis, como orientação sexual, religião, opinião política e dados genéticos.

AppTipos de dadosDestaque da declaração
Meta AI33 de 35Único com categoria financeira; inclui dados sensíveis
Google Gemini23Localização precisa, contatos e histórico de navegação
ChatGPT17Cresceu 70% sobre o levantamento anterior
Claude13Coleta voltada à funcionalidade do app
DeepSeek13Declara armazenamento em servidores na China

No levantamento atualizado, o ChatGPT passou a coletar 17 dos 35 tipos de dados, um salto de 70% sobre os 10 tipos do levantamento anterior; entraram no rótulo localização aproximada, dados de saúde e fitness e informações de publicidade. O Gemini coleta 23 tipos de dados, entre eles a localização precisa do dispositivo, algo que poucos apps da análise declaram. O DeepSeek, por sua vez, informa manter registros pelo tempo que julgar necessário, em servidores localizados na China.

O que os chatbots deduzem

Coleta declarada é só metade do problema. Em estudo de retenção publicado em outubro de 2025, a Surfshark rodou conversas roteirizadas em cinco chatbots e, ao final, pediu que cada um resumisse tudo o que sabia sobre o usuário. Toda informação dita explicitamente voltou no resumo — e parte do que não foi dita também: em testes de inferência, o Grok deduziu corretamente 53 de 54 informações a partir de pistas soltas nas conversas, como a idade revelada por um pedido de ideias de aniversário. Perplexity, ChatGPT e os demais também reconstruíram perfis com precisão alta.

Outro resultado merece atenção: o Gemini e o Meta AI identificaram a localização real do usuário detectando o endereço IP, sem que ela tivesse sido mencionada em nenhuma pergunta. Quando o usuário pedia para o chatbot esquecer tudo, as respostas variavam entre prometer esquecimento automático e redirecionar para a política de privacidade — e a política, em geral, confirma que registros de conversa são mantidos. Na prática, apagar o chat não apaga o registro no servidor; a exclusão real costuma exigir pedido formal pelos canais de suporte.

O que a FTC investiga

O tema deixou de ser conversa de especialistas. Em setembro de 2025, a FTC notificou as empresas por trás dos principais chatbots para explicar como medem, testam e monitoram impactos negativos, com foco em crianças e adolescentes. Entre os destinatários estão Alphabet, Meta, OpenAI, Snap e X.AI. O órgão quer saber como cada empresa monetiza o engajamento, processa o que o usuário digita e usa ou compartilha dados pessoais obtidos nas conversas. Para quem usa IA no trabalho, a mensagem é direta: a conversa com o assistente é um registro, e autoridades podem solicitar acesso a esses dados, como já fazem com buscas e mensagens em outras plataformas.

Seis passos de privacidade

  1. Desligue o treinamento com seus dados. Procure opções como ‘Improve the model for everyone’ nas configurações e desative o uso das conversas para treinar modelos.
  2. Prefira conversas temporárias para assuntos pessoais ou sensíveis; muitos assistentes oferecem modos que não salvam histórico.
  3. Nunca cole documentos de identidade, contratos, exames ou dados de clientes no chat; troque por versões anonimizadas antes de pedir ajuda.
  4. Peça exclusão formal. Apagar a conversa no app não garante remoção no servidor; use os canais de privacidade de cada serviço.
  5. Leia o rótulo da loja antes de instalar e compare com a tabela acima; entre dois assistentes equivalentes, escolha o que coleta menos.
  6. Separe conta pessoal e conta de trabalho, com regras claras sobre o que pode entrar em cada conversa.

Onde a IA compensa

Nada disso significa voltar ao caderno. IA compensa quando o ganho é concreto e o dado exigido é dispensável: rascunhar textos, resumir materiais públicos, organizar a semana ou montar plano de estudos. Compensa menos quando o serviço pede contexto íntimo para entregar algo que você resolve sozinho em minutos. Se a dúvida é custo-benefício de assinar um plano, vale aplicar as quatro perguntas para decidir se vale pagar por IA; se o objetivo é rotina de estudos, o guia de IA para aprender idiomas mostra o que funciona sem expor sua vida pessoal. A regra geral: compartilhe a tarefa, nunca a identidade.

Fontes