A Sede Oculta da IA: Cada Prompt Bebe Uma Garrafa de Água

A sede da inteligência artificial não se mede em processadores ou energia elétrica, mas em litros de água. Cada vez que você envia um prompt de 100 palavras para o ChatGPT, cerca de 519 mililitros de água evaporam dos sistemas de refrigeração de um data center — o equivalente a uma garrafa de meio litro. A estimativa é de pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside, e ela representa apenas a ponta de um problema que cresce em escala colossal: os centros de processamento de inteligência artificial dos Estados Unidos consumiram 264 bilhões de galões de água em 2025, segundo dados compilados pela Barchart. Em litros, isso passa de um trilhão. E a maioria dos novos data centers está sendo construída justamente nas regiões mais secas do país.

O Custo Hídrico de Cada Pergunta

A pesquisa da Universidade da Califórnia em Riverside, publicada e amplamente citada por publicações como o Harvard Science Review, calculou que gerar uma única resposta de 100 palavras em um modelo como o GPT consome aproximadamente 519 mililitros de água. Esse volume cobre tanto a evaporação direta nas torres de resfriamento quanto a água indireta usada na geração de eletricidade que alimenta os servidores.

Pode parecer pouco isoladamente, mas o cálculo muda de figura quando se considera a escala: bilhões de pessoas usam ferramentas de IA todos os dias, fazendo perguntas por minuto. A Environmental and Energy Study Institute (EESI) alerta que esse consumo individual, multiplicado pela massa de usuários globais, transforma cada garrafa invisível em rios inteiros de água evaporada.

264 Bilhões de Galões em 2025

Os dados mais alarmantes vêm do agregador financeiro Barchart, que compilou informações ambientais e industriais: os data centers de IA nos Estados Unidos consumiram aproximadamente 264 bilhões de galões de água em 2025, a uma taxa de 550 milhões de galões por dia. Esse volume equivale ao consumo anual de 1,8 milhão de americanos, tudo transformado em vapor para manter servidores funcionando em temperatura segura.

O jornal britânico The Guardian, em análise publicada em 8 de junho de 2026, traça uma trajetória de crescimento vertiginoso: a demanda total de água por data centers nos EUA era de cerca de 17 bilhões de galões anuais em 2023 e deve saltar para 73 bilhões de galões por ano até 2028. Cada grande centro, alguns do tamanho de pequenas cidades, pode exigir até 5 milhões de galões por dia — o equivalente ao consumo de 50 mil pessoas.

AnoConsumo anual (galões)Equivalência
2023~17 bilhõesConsumo anual de ~120 mil americanos
2025264 bilhões1,8 milhão de americanos; ~1 trilhão de litros
2028 (projeção)73 bilhões (apenas direto)Crescimento de 4x sobre 2023
2030 (projeção Texas)399 bilhões (só no Texas)9% da água total do estado

Nota: os números de 2023 e 2028 refletem consumo direto de resfriamento, conforme o The Guardian. O volume de 2025 (264 bilhões) inclui consumo indireto pela geração de eletricidade, segundo a Barchart.

Data Centers em Zonas de Seca

O achado mais perturbador da análise do The Guardian é geográfico. De 809 data centers planejados nos Estados Unidos, 517 — quase dois terços — estão programados para regiões que passaram por condições de seca durante todo o último ano. Os dados vêm da plataforma Cleanview cruzada com informações do governo federal americano, que classifica a seca em quatro níveis de gravidade.

Essa aparente contradição — instalar instalações sedentas em lugares secos — tem uma explicação econômica. Desenvolvedores são atraídos por áreas áridas por três motivos: terra mais barata, incentivos fiscais generosos e clima seco que causa menos corrosão aos equipamentos. O resultado é uma colisão direta entre infraestrutura de IA e escassez hídrica.

Um caso emblemático é o estado de Utah, onde um dos maiores data centers do mundo — um complexo com o dobro do tamanho de Manhattan — foi aprovado em maio de 2026 num condado que enfrenta seca severa desde o verão anterior. A Meta estima que o centro consumirá até 1 bilhão de galões de água por ano, extraídos de um aquífero atualmente usado para agricultura.

O Alerta do Texas

O estado do Texas oferece o exemplo mais dramático da trajetória projetada. Um estudo do Houston Advanced Research Center (HARC) e da University of Houston, divulgado pelo Lincoln Institute of Land Policy, calcula que os data centers do Texas consumirão 49 bilhões de galões de água em 2025 e podem chegar a 399 bilhões de galões em 2030.

O The Guardian destaca ainda uma projeção que gera preocupação imediata: os data centers poderiam representar 9% do consumo total de água do Texas até 2040. A Texas Water Development Board já prevê que o estado enfrentará demanda crescente e oferta declinante de água nas próximas décadas, com ou sem o peso adicional da inteligência artificial.

Dois dos maiores novos data centers do estado estão sendo construídos nos condados de Pecos e Carson, ambos recentemente castigados pela seca. É o cenário perfeito para o que Christopher Dalbom, especialista em direito de recursos hídricos da Universidade de Tulane, descreveu ao The Guardian como inevitável: “Mesmo sem mudanças climáticas, sentiríamos os efeitos das secas de forma mais aguda, porque a demanda de água só aumenta. Agora, com essa explosão de data centers, acho que um ponto de colisão é inevitável.”

Meta e Um Bilhão de Galões

As gigantes da tecnologia reconhecem o problema, mas seguem expandindo. O The Guardian relata que empresas como Google, Meta, Microsoft e Amazon estão despejando bilhões de dólares em novos centros de processamento — a mesma corrida que levou o Google a alugar 110 mil GPUs da SpaceX num acordo de US$ 32 bilhões. No condado de Box Elder, em Utah, a Meta planeja o chamado Stratos Project — um complexo que se estende por cerca de 40 mil acres e pode exigir até 9 gigawatts de energia.

Em Walla Walla, no estado de Washington, um data center planejado pela Amazon ficará em um condado que está mergulhado na seca desde julho de 2025. Na Flórida, o jornal Tallahassee Democrat reportou em abril de 2026 que centros hiperscala precisarão de quantidades gigantescas de água para refrigeração, mesmo em um estado conhecido por clima quente e úmido.

A Previsão Alarmante da ONU

O problema extrapolou as fronteiras americanas. Um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em 3 de junho de 2026 e citado pela revista Time, projeta que a inteligência artificial poderá consumir, globalmente, tanta água quanto 1,3 bilhão de pessoas usam até 2030. Grandes data centers, segundo o documento, podem consumir até 5 milhões de galões por dia apenas para manter os servidores resfriados.

Em comunidades que já enfrentam escassez hídrica, essa demanda coloca uma pressão adicional sobre recursos já escassos. A tensão entre empresas de tecnologia e populações locais está crescendo. No início de maio de 2026, conforme dados do National Integrated Drought Information System dos EUA, quase 63% do território americano estava em algum grau de seca — a maior extensão registrada para uma primavera na história moderna.

Soluções Para a Sede da IA

A indústria não está totalmente surda ao problema. Algumas alternativas técnicas começam a ganhar força. O resfriamento por imersão — onde servidores ficam mergulhados em fluidos dielétricos em vez de usar água — pode reduzir drasticamente o consumo hídrico. A HyScaler, em análise publicada em 2026, aponta que empresas estão explorando sistemas de recirculação fechada e refrigeração por ar evaporativo adiabático, que reduz o uso de água potável.

Há também pressão regulatória crescendo. Nos EUA, municípios começam a exigir que data centers divulguem seu consumo real de água — algo que hoje muitas empresas mantêm em sigilo. O jornal Tom’s Hardware reportou que um projeto de data center de IA nos EUA consumiu secretamente 29 milhões de galões de água antes que a comunidade local descobrisse o volume real.

Para os usuários finais — incluindo leitores no Brasil — o custo hídrico da IA raramente aparece na interface limpa de um chatbot. Mas cada pergunta, cada imagem gerada e cada vídeo sintetizado tem um preço invisível medido em litros. Enquanto empresas como o Google começam a cobrar US$ 4,99 por assinaturas de IA, nenhum centavo desse valor é designado para mitigar o impacto hídrico das operações. Entender essa equação é o primeiro passo para exigir que a indústria da IA internalize o custo ambiental que hoje transfere para comunidades que, em muitos casos, nem usam a tecnologia.

Perguntas Frequentes

Quanta água cada prompt de IA consome?

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside estimam que um prompt de 100 palavras consome aproximadamente 519 mililitros de água — o equivalente a uma garrafa de meio litro — entre resfriamento direto e geração de eletricidade para os servidores.

Quantos galões de água os data centers consumiram em 2025?

Segundo dados compilados pela Barchart, os data centers de IA nos Estados Unidos consumiram cerca de 264 bilhões de galões de água em 2025, a uma taxa de 550 milhões de galões por dia. Esse volume equivale ao consumo anual de 1,8 milhão de americanos.

Por que data centers são construídos em zonas de seca?

Desenvolvedores são atraídos por áreas áridas pela terra mais barata, incentivos fiscais generosos e menor corrosão dos equipamentos. Segundo o The Guardian, 517 dos 809 data centers planejados nos EUA estão em regiões que sofreram seca no último ano.

Referências