Google Perde o Criador do Transformer Para a OpenAI

Em 18 de junho de 2026, Noam Shazeer publicou no X que deixava o Google após mais de duas décadas para se juntar à OpenAI. O nome pode soar desconhecido fora dos círculos técnicos, mas sem ele o ChatGPT, o Gemini e o Claude provavelmente não existiriam na forma que conhecemos. Shazeer é um dos oito co-autores do paper “Attention Is All You Need”, de 2017, que apresentou ao mundo a arquitetura Transformer — o motor de praticamente todo modelo de linguagem em produção hoje (TechTimes).

A contratação foi confirmada por Mark Chen, diretor de pesquisa da OpenAI, que definiu o cargo de Shazeer como “Lead for Architecture Research”. Sam Altman comemorou no X: “noam is one of the people I have most wanted to work with since the very beginning of openai. only took 10 years. i think it will be worth the wait” (CRN).

Quem é Noam Shazeer

Shazeer entrou no Google no ano 2000 como engenheiro de software, quando a empresa ainda tinha poucas centenas de funcionários. Subiu na hierarquia até se tornar engenheiro de software principal em 2012 — um dos cargos técnicos mais altos da companhia. Nos últimos anos, ocupava o posto de vice-presidente de engenharia e era co-líder da família de modelos Gemini, o produto de IA que o Google posiciona diretamente contra o ChatGPT (CRN).

Sua trajetória dentro do Google inclui contribuições que vão muito além do Transformer. Ele esteve envolvido em projetos como o Spelling Correction do buscador e em sistemas de machine learning aplicados a produtos usados por bilhões de pessoas. Dentro da comunidade de pesquisa, porém, seu nome está ligado a duas inovações que definem a escala moderna da IA: a arquitetura Sparse Mixture of Experts (MoE) e o mecanismo de multi-query attention, ambos essenciais para que modelos com centenas de bilhões de parâmetros sejam viáveis comercialmente (TechTimes).

O Paper Que Mudou Tudo

Em junho de 2017, oito pesquisadores do Google publicaram o artigo “Attention Is All You Need” no servidor arXiv. O texto propunha abandonar as redes neurais recorrentes (RNN) e as redes LSTM — então o padrão para processar sequências de texto — em favor de uma arquitetura baseada inteiramente em mecanismos de atenção. A ideia central era simples em conceito, mas radical em consequência: em vez de processar cada palavra de uma frase uma de cada vez, o Transformer contextualiza todas as palavras simultaneamente (arXiv — Attention Is All You Need).

Isso resolveu dois problemas críticos de uma só vez. O primeiro era o chamado “vanishing gradient”, que degradava a capacidade do modelo de usar informações do início de uma frase longa quando chegava ao final. O segundo era a impossibilidade de paralelizar o treinamento: como as RNNs processavam tokens em sequência, não era possível distribuir o trabalho de forma eficiente entre múltiplas GPUs. O Transformer permitiu treinar modelos com centenas de milhões de parâmetros em semanas, algo que antes levaria meses (TechTimes).

A Saga da Character AI

Shazeer não ficou continuamente no Google. No final de 2021, deixou a empresa para co-fundar a startup Character.AI ao lado de Daniel De Freitas. A empresa, sediada no Vale do Silício, criava chatbots com personalidades definidas e rapidamente se tornou uma das startups de IA mais quentes do mundo, alcançando uma avaliação de US$ 1 bilhão já em 2023 (CRN).

Em agosto de 2024, o Google fez um movimento surpreendente: pagou aproximadamente US$ 2,7 bilhões para recontratar Shazeer e De Freitas, juntamente com membros-chave da equipe de pesquisa da Character.AI. O acordo também incluía o licenciamento da tecnologia da startup. Era, na prática, uma forma de trazer de volta os cérebros por trás de parte importante da arquitetura do Gemini. Menos de dois anos depois, esse investimento de US$ 2,7 bilhões está indo embora com o próprio Shazeer rumo à OpenAI (TechCrunch).

O Que a OpenAI Ganha

O título de Shazeer na OpenAI — “Lead for Architecture Research” — é revelador. Ele não vai liderar um produto ou uma equipe de engenharia genérica. Vai comandar a pesquisa de arquitetura, ou seja, o design dos próprios modelos. É a camada mais fundamental de uma empresa de IA: a estrutura matemática e computacional que determina quão inteligente, rápido e barato um modelo pode ser (TechTimes).

Em termos práticos, Shazeer traz conhecimento direto sobre duas das otimizações mais valiosas da indústria. A primeira é a Sparse Mixture of Experts (MoE), que permite que apenas uma fração dos parâmetros do modelo seja ativada para cada token gerado — reduzindo drasticamente o custo de inferência sem sacrificar capacidade. A segunda é o multi-query attention, que diminui o uso de memória durante a geração de texto. Ambas são pilares da economia de quem opera modelos em escala planetária (TechTimes).

O Timing Antes do IPO

A contratação não acontece em um vácuo. A OpenAI registrou confidencialmente os documentos para sua oferta pública inicial (IPO) em maio de 2026, com expectativa de chegar ao mercado ainda neste ano, segundo o CRN. A empresa vem consolidando sua posição global em múltiplas frentes — incluindo planos de expansão na Índia — e cada movimento agora faz parte da narrativa que contará aos investidores.

Trazer o co-inventor do Transformer semanas antes do IPO é, do ponto de vista de narrativa de mercado, quase perfeito. É o tipo de notícia que aparece em apresentações para investidores e prospectos como prova de que a empresa continua atraindo o talento mais raro do setor — mesmo vindo do maior concorrente direto.

A Guerra por Talentos

O movimento de Shazeer é a peça mais recente de um xadrez que envolve Google, OpenAI, Anthropic e Meta. Os principais laboratórios de IA do mundo estão disputando um número extremamente limitado de pesquisadores capazes de projetar arquiteturas de modelos em escala de fronteira — uma tensão que também esteve em pauta no G7 em Évian, onde chefões da IA ganharam assento na mesa de governos. Shazeer não é apenas um nome famoso: é alguém que combinou contribuições teóricas com execução em produtos usados por bilhões de pessoas (TechCrunch).

A OpenAI também aproveitou a semana para lançar seu primeiro programa de canais — o OpenAI Partner Network — com um investimento inicial de US$ 150 milhões e a meta de certificar 300 mil consultores até o fim de 2026. Liderando a operação está Colleen Kapase, ex-líder do programa de parceiros do Google Cloud, que trocou de lado no início deste ano. Outras contratações recentes incluem Peter Steinberger, criador do OpenClaw, e Denise Dresser, ex-CEO do Slack (CRN).

A Contratação de Dean Ball

Junto com Shazeer, a OpenAI anunciou outra contratação estratégica: Dean Ball, ex-assessor de IA da Casa Branca durante o governo Trump. Ball ajudou a publicar o “America’s AI Action Plan” antes de deixar o governo para atuar como pesquisador sênior na Foundation for American Innovation, um think tank tecnolibertário (TechCrunch).

A partir de 6 de julho de 2026, Ball comandará um novo time chamado “Strategic Futures”, reportando diretamente ao diretor de estratégia Jason Kwon. O mandato do grupo cobre risco catastrófico, autossuficiência recursiva, impacto no mercado de trabalho e a relação entre laboratórios de fronteira e governos. Ball escreveu em seu blog que a governança interna será “mais central para o futuro da IA do que a maioria das pessoas percebe” — um sinal de que a OpenAI quer definir as regras do jogo, e não apenas cumpri-las (TechCrunch).

Resumo: O Que Muda

AspectoAntes (Google)Depois (OpenAI)
CargoVP de Engenharia, co-líder do GeminiLead for Architecture Research
Foco técnicoDesenvolvimento e liderança do GeminiDesign de arquitetura de modelos de fronteira
ContextoRecontratado por US$ 2,7 bi em 2024Contratado às vésperas do IPO da OpenAI
Impacto simbólicoSaída de um dos arquitetos do TransformerA OpenAI reforça seu time antes de abrir capital

O Que Isso Significa

Quando o co-inventor da arquitetura que sustenta toda a IA generativa moderna troca o Google pela OpenAI, o impacto é duplo. No plano técnico, a OpenAI ganha acesso direto à mente por trás das otimizações que tornaram modelos gigantes viáveis — conhecimento que pode acelerar a próxima geração de seus sistemas. No plano competitivo, o Google perde um líder que custou US$ 2,7 bilhões para trazer de volta há menos de dois anos (Gadgets Now).

O Google, em comunicado à Reuters, limitou-se a afirmar que “agradece as contribuições significativas de Noam ao longo dos anos”. A frase educada não esconde o fato de que a empresa perdeu, pela segunda vez, um dos pesquisadores mais influentes da história recente da computação. E desta vez, ele não está indo fundar uma startup — está indo para a concorrente que mais pressiona o seu negócio de IA (TechTimes).

Perguntas Frequentes

Quem é Noam Shazeer?

Noam Shazeer é engenheiro de software e pesquisador de IA, um dos oito co-autores do paper “Attention Is All You Need” (2017), que introduziu a arquitetura Transformer. Trabalhou no Google de 2000 a 2021, co-fundou a Character.AI e foi recontratado pelo Google em 2024 em um acordo de US$ 2,7 bilhões. Em junho de 2026, anunciou sua ida para a OpenAI como Lead for Architecture Research (CRN).

O que é a arquitetura Transformer?

O Transformer é uma arquitetura de rede neural introduzida em 2017 que substituiu as redes recorrentes (RNN e LSTM) no processamento de linguagem. Sua inovação central é o mecanismo de self-attention, que permite contextualizar todas as palavras de uma sequência simultaneamente, viabilizando o treinamento paralelo em GPUs. É a base do ChatGPT, do Gemini, do Claude e de praticamente todos os modelos de linguagem modernos (arXiv).

Por que a contratação é tão importante?

Shazeer traz conhecimento direto sobre Sparse Mixture of Experts (MoE) e multi-query attention, duas otimizações que reduzem o custo de rodar modelos gigantes. Além disso, a contratação acontece às vésperas do IPO da OpenAI e tira do Google um pesquisador pelo qual a empresa pagou US$ 2,7 bilhões há menos de dois anos (TechCrunch).

Quando a OpenAI vai abrir capital?

A OpenAI registrou confidencialmente os documentos do IPO em maio de 2026 e espera chegar ao mercado público ainda neste ano, segundo o CRN. A data exata de estreia na bolsa ainda não foi divulgada oficialmente.

Referências