A Qualcomm está em negociações avançadas para comprar a Tenstorrent, startup de chips de IA liderada pelo lendário projetista Jim Keller, em um negócio avaliado entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões, segundo reportagem da Foreign Policy Journal baseada em informações da agência Reuters. O objetivo: montar uma arquitetura baseada no padrão aberto RISC-V capaz de desafiar o domínio da NVIDIA em inferência de IA — o tipo de processamento que roda respostas de modelos como o ChatGPT e que define cada vez mais o custo real da inteligência artificial.
As conversas ainda não estão encerradas. A Reuters e o site especializado The Information divulgaram os detalhes entre 15 e 16 de junho de 2026, e ambas as empresas se recusaram a comentar oficialmente, segundo o portal Igor’s Lab. Mas a dimensão da cifra e o nome de Keller envolvido foram suficientes para empurrar as ações da Qualcomm (NASDAQ: QCOM) mais de 4% no pré-mercado em 16 de junho, antes de fecharem a US$ 214,07, conforme registrou a TechTimes.
A Jogada de US$ 10 Bilhões
O preço discutido chama atenção por um motivo simples: poucos meses antes, no fim de 2025, a Tenstorrent buscou capital a uma avaliação pré-investimento de cerca de US$ 3,2 bilhões, segundo o relato da The Information reproduzido pela TechTimes. Saltar para até US$ 10 bilhões em menos de um ano exige uma justificativa forte. Ela veio em duas partes.
A primeira foi técnica: a plataforma de computação Galaxy Blackhole atingiu disponibilidade geral em 28 de abril de 2026, dando à Tenstorrent um produto em produção com especificações verificáveis. A segunda foi de mercado: a Intel também demonstrou interesse no mesmo ativo, criando uma dinâmica de leilão competitivo entre dois gigantes do silício. Quando o silício personalizado de IA da NVIDIA gera margens acima de 70%, pagar US$ 10 bilhões pela empresa com a arquitetura de acelerador RISC-V mais coerente do mercado é uma afirmação sobre escassez de talento, não sobre receita passada.
Jim Keller: O Arquiteto dos Chips
Tirar a narrativa de Jim Keller da história e ainda assim justificar US$ 10 bilhões é difícil. Keller é tratado no setor de processadores quase como uma categoria de produto própria. Seu currículo inclui trabalho nos processadores DEC Alpha, na linha K7 e K8 da AMD, na família Zen que ressuscitou a companhia, nos chips A4 e A5 dos primeiros iPhones da Apple e no primeiro processador interno da Tesla para direção autônoma, conforme documentou o Igor’s Lab. Ele também foi vice-presidente sênior do grupo de engenharia de silício na Intel.
Na Tenstorrent, Keller lidera uma empresa que quer conectar arquiteturas de CPU e IA mais estreitamente, usando padrões abertos e propriedade intelectual licenciável. Para a Qualcomm, o próprio Keller não seria a única atração: toda a equipe de desenvolvimento por trás dos núcleos Tensix, dos compiladores e da engenharia de sistemas seria decisiva. A empresa de San Diego já tem expertise em CPU e NPU, mas opera tradicionalmente no espaço móvel. Construir um negócio de data center exige arquiteturas e software adicionais.
A Aposta no RISC-V Aberto
A decisão técnica central da Tenstorrent é uma aposta no RISC-V, um padrão de conjunto de instruções aberto que qualquer empresa pode usar e modificar sem pagar royalties. Isso contrasta com a arquitetura proprietária ARM, que domina os celulares, e com o ecossistema CUDA da NVIDIA, que domina a computação de IA há quase 20 anos. A Qualcomm tem montado essa estratégia peça por peça: venceu um processo contra a ARM em dezembro de 2024, adquiriu a fabricante de chips de servidor RISC-V Ventana Micro Systems em dezembro de 2025 e concluiu a compra de US$ 2,4 bilhões da Alphawave Semi, fornecedora de interconexões de alta velocidade.
A Tenstorrent seria a camada de acelerador — o componente que transforma um conjunto de blocos RISC-V em uma pilha de infraestrutura de IA completa e capaz de apontar diretamente para o mercado que a NVIDIA domina hoje, e cujo domínio se estende de GPUs para centros de dados — como no acordo de US$ 32 bilhões em que o Google aluga 110 mil GPUs. Cada núcleo Tensix contém cinco núcleos RISC-V, dois dedicados ao movimento de dados e três à orquestração de cálculo, além de uma unidade de matriz para operações de tensor e entre um e dois megabytes de memória estática no chip. Os núcleos se comunicam por uma rede-on-chip: uma malha direta de roteadores de hardware que permite a qualquer núcleo acessar a memória local de outro sem passar pela memória DRAM externa.
Por Que a NVIDIA Pode Perder
A justificativa técnica da Tenstorrent se apoia em uma diferença concreta entre treinar e rodar modelos. Toda GPU da NVIDIA é construída em torno do mesmo compromisso: milhares de threads paralelos escondem a latência de acesso à memória mantendo trabalho suficiente em execução. Isso funciona bem para grandes treinamentos, em que lotes são grandes. Funciona mal para inferência em tempo real, em que uma única requisição de usuário dispara uma carga pequena que não dá à GPU trabalho suficiente para preencher sua maquinaria. Nesse regime, a GPU gasta boa parte do seu orçamento de energia movendo dados por uma memória de alta largura de banda que não utiliza por completo.
A Tenstorrent fez o caminho oposto. Quando as matrizes de pesos ativas de um modelo cabem naquele pool de memória SRAM distribuída no chip, o sistema roda a inferência sem tocar na DRAM. O servidor Galaxy Blackhole — 32 chips em um gabinete 6U, interconectados por uma malha Ethernet de 100 terabits por segundo — entrega 6,2 gigabytes de SRAM agregada operando a 2,9 petabytes por segundo de largura de banda interna. O sistema completo oferece 23 petaFLOPS de cálculo Block FP8 a partir de US$ 110 mil, cerca de um terço a um quinto do preço de uma configuração DGX equivalente da NVIDIA em desempenho comparável em inferência, segundo a própria Tenstorrent. A TechTimes alerta, porém, que a figura de 23 petaFLOPS é uma alegação da empresa e que comparações independentes em cargas de produção ainda não existem.
A Estratégia de Data Center
A Qualcomm agora concretizou suas ambições de data center. A empresa planeja um cadastro anual de produtos de inferência de IA e introduz novas plataformas de rack com as linhas Qualcomm AI 200 e AI 250. A AI 200 deve chegar em 2026 e usa tecnologia Hexagon NPU, refrigeração líquida direta e até 768 GB de memória LPDDR por placa. A AI 250 está prevista para o início de 2027, com uma arquitetura de computação próxima à memória que promete mais de dez vezes a largura de banda efetiva em comparação com a AI 200, consumindo menos energia. Essas promessas, segundo o Igor’s Lab, ainda precisam se provar em testes independentes.
É ali que a Tenstorrent se torna estrategicamente valiosa. Com a família Ascalon, a startup possui núcleos RISC-V de alto desempenho destinados a aplicações de infraestrutura, servidor e IA. Uma aquisição permitiria à Qualcomm combinar sua linha móvel e de PC com processadores de servidor e aceleradores próprios. O Investor Day da Qualcomm, marcado para 24 de junho, deverá revelar metas formais de receita de data center — o palco escolhido para o próximo capítulo dessa estratégia, numa disputa de silício tão acirrada quanto a que já vimos em modelos abertos como o NVIDIA Cosmos 3.
O Risco: Keller Costuma Ir Embora
O preço de US$ 10 bilhões carrega uma pergunta que ele mesmo não responde: a Qualcomm está pagando por uma pessoa ou por uma arquitetura? O analista Stacy Rasgon, da Bernstein, manteve uma recomendação de desempenho de mercado para as ações da Qualcomm após os relatos da aquisição, segundo a TechTimes, e sinalizou tanto a lógica estratégica quanto o risco principal: talento. Rasgon escreveu que, embora ter Jim Keller na folha de pagamento fosse uma conquista para qualquer empresa, dificilmente ele ficaria por muito tempo, pois seu comportamento típico é deixar empresas públicas logo após chegar. Essa observação se baseia no padrão documentado da carreira de Keller: AMD, Apple, Tesla, Intel, cada um por dois a quatro anos. A propriedade intelectual sobreviveu em todos os lugares por onde ele passou.
Se Keller e outros desenvolvedores-chave saíssem após o fechamento do negócio, o desenvolvimento de chips de alto desempenho comprado a preço alto poderia perder valor rapidamente. Por isso, a retenção da equipe é componente central de qualquer estrutura de transação — e relatos indicam que parte do valor pode incluir earn-outs, parcelas pagas apenas se metas técnicas e comerciais forem cumpridas.
O Que Muda Para Você
Para o consumidor e para empresas brasileiras que dependem de IA, a consequência prática é econômica. A inferência — o ato de gerar uma resposta a partir de um modelo treinado — é o custo dominante de qualquer serviço de IA hoje, um problema que já faz o orçamento de IA estourar em empresas. Se uma arquitetura RISC-V aberta conseguir entregar inferência a um terço do preço de uma GPU da NVIDIA, como a Tenstorrent afirma, o efeito em cascata é o barateamento de assinaturas, APIs e ferramentas que usam IA no dia a dia. Mais concorrência no silício significa pressão de preços baixa em toda a cadeia.
Há também uma dimensão de soberania tecnológica. O RISC-V, por ser aberto, permite que países e empresas desenvolvam chips próprios sem depender de licenças de arquiteturas controladas por poucas companhias. Universidades e startups brasileiras já exploram o padrão em pesquisa. Uma consolidação liderada pela Qualcomm pode acelerar o amadurecimento do ecossistema RISC-V ou, se o controle se fechar, reabrir a velha discussão sobre lock-in proprietário — agora em uma nova arquitetura.
Perguntas Frequentes
A Qualcomm já comprou a Tenstorrent?
Não. Segundo a Reuters e o site The Information, em meados de junho de 2026 a Qualcomm estava em negociações avançadas para adquirir a Tenstorrent por um valor entre US$ 8 bilhões e US$ 10 bilhões. As duas empresas se recusaram a comentar oficialmente e o acordo ainda não foi fechado, podendo mudar de preço ou até não se concretizar.
Quem é Jim Keller?
Jim Keller é um dos projetistas de chips mais respeitados do mundo. Trabalhou nos processadores DEC Alpha, nas linhas K7, K8 e Zen da AMD, nos chips A4 e A5 dos primeiros iPhones da Apple, no primeiro processador interno da Tesla para direção autônoma e foi vice-presidente sênior de engenharia de silício na Intel. Hoje lidera a Tenstorrent.
O que é RISC-V e por que importa?
RISC-V é um padrão aberto de conjunto de instruções de processador. Diferente da arquitetura ARM ou do ecossistema CUDA da NVIDIA, o RISC-V pode ser usado e modificado por qualquer empresa sem pagamento de royalties. Isso permite que companhias e países desenvolvam chips próprios sem depender de licenças proprietárias controladas por poucos fabricantes.
Como isso afeta o preço da IA?
A Tenstorrent afirma que seu servidor Galaxy Blackhole entrega desempenho comparável ao de uma configuração DGX da NVIDIA por um terço a um quinto do preço em cargas de inferência. Se confirmado em testes independentes, mais concorrência no silício pode baratear assinaturas, APIs e ferramentas de IA para empresas e consumidores.
Referências
- Foreign Policy Journal — Qualcomm Eyes $8B-$10B Tenstorrent Acquisition (16 jun. 2026)
- TechTimes — Qualcomm Pursues Tenstorrent at Up to $10 Billion: RISC-V Bet on Nvidia’s Blind Spot (17 jun. 2026)
- Igor’s Lab — Qualcomm Considers Tenstorrent Acquisition for $10 Billion (18 jun. 2026)
- Crescendo AI — The Latest AI News and Breakthroughs (maio-jun. 2026)