Robôs Humanoides Trabalham 200 Horas Sem Parar: A Virada da Figure AI

200 horas sem parar

Entre 13 e 21 de maio de 2026, a Figure AI manteve um livestream contínuo de seus robôs humanoides Figure 03 manuseando pacotes em uma esteira — e o resultado foi 200 horas de operação autônoma sem falha. Ao todo, os robôs processaram 249.560 pacotes em um cenário de armazém, inspecionando códigos de barras e posicionando caixas e envelopes na esteira com as etiquetas viradas para baixo. O feito, que começou como uma demonstração planejada de oito horas, se transformou em um evento viral que atraiu milhares de espectadores no YouTube e gerou apostas em plataformas de previsão como a Polymarket.

A demonstração partiu de uma premissa ousada: os robôs operariam de forma totalmente autônoma, sem qualquer teleoperador humano controlando seus movimentos. Segundo Brett Adcock, CEO da Figure AI, a expectativa inicial era modesta. “Altas chances de algo quebrar”, ele postou no X antes do início. Oito horas já seriam um salto comparado ao demo anterior da empresa, que durou apenas uma. Mas os robôs superaram todas as expectativas — e a equipe decidiu manter a transmissão 24 horas por dia.

Helix 02: o cérebro por trás

O que permite que os robôs da Figure operem de forma autônoma por horas é o Helix 02, o modelo de visão-linguagem-ação (VLA) lançado pela empresa em janeiro de 2026. Diferente do Helix 01, que controlava principalmente os braços, o Helix 02 estende o controle para o corpo inteiro do robô, habilitando o que a empresa chama de “autonomia de longo alcance”. Segundo a página oficial da Figure AI, o sistema é treinado com mais de 1.000 horas de dados de movimento humano capturados por motion capture, além de treinamento em simulação distribuída por mais de 200.000 ambientes paralelos.

O detalhe técnico mais relevante: todo o processamento de IA acontece dentro do robô. A inferência do Helix 02 roda inteiramente no hardware onboard do Figure 03, sem depender de servidores na nuvem. Quando a bateria de um robô começa a ficar baixa — cerca de três a quatro horas de operação — ele solicita autonomamente que outro robô assuma seu lugar. É um sistema descentralizado onde os robôs se comunicam entre si para manter a operação contínua.

Humano x Robô: o placar

No dia 17 de maio, a Figure AI escalou a demonstração para um formato inédito: uma competição direta de 10 horas entre um estagiário humano e um dos robôs. Aimé Gérard, estagiário da empresa, representou o lado humano — com direito a intervalos para refeição e descanso, conforme a legislação trabalhista da Califórnia.

O resultado, coberto pela Business Insider, foi apertado:

MétricaHumano (Aimé Gérard)Robô (Figure 03)
Pacotes processados12.92412.732
Tempo médio por pacote2,79 segundos2,83 segundos
Duração da competição10 horas (com intervalos)10 horas (contínuo)
Diferença192 pacotes (1,5%) — vitória humana

A diferença foi de apenas 192 pacotes em 10 horas de trabalho. O estagiário venceu, mas a margem é estreita o suficiente para colocar a previsão de Adcock em perspectiva. “Esta é a última vez que um humano vai ganhar”, declarou o CEO no X. O vídeo comparativo mostrou que, enquanto Gérard movia pacotes com velocidade e precisão, os robôs operavam de forma mais metódica — ocasionalmente gastando tempo extra tentando pegar um pacote ou errando o movimento.

Figure 03 e o caminho até aqui

Para entender o tamanho do marco, vale olhar a trajetória da empresa. Fundada em 2022 por Brett Adcock — também fundador da Archer Aviation e da Vettery — a Figure AI já desenvolveu três gerações de humanoides. O Figure 01 foi o protótipo de 2023, ainda com cabos externos. O Figure 02, lançado em agosto de 2024, trouxe um salto significativo: 35 graus de liberdade, mãos de cinco dedos com 16 graus de liberdade cada, capacidade de carga de 25 kg, seis câmeras RGB e três vezes mais poder computacional que a geração anterior.

O Figure 03, anunciado em outubro de 2025, é o modelo usado na demonstração. Ele traz câmeras com o dobro da taxa de quadros, um quarto da latência e campo de visão 60% mais amplo. Inclui câmera em cada mão, sensores táteis nas pontas dos dedos capazes de detectar forças de até 3 gramas, materiais flexíveis para segurança, e carregamento por indução sem fio. O design incorpora têxteis removíveis e laváveis — um detalhe que soa menor, mas indica que a empresa está pensando em implantação real, não apenas em laboratório.

BMW e o teste real

O maior teste real da Figure AI até o momento não foi em armazém, mas na fábrica. Entre 2025 e o início de 2026, o Figure 02 foi implantado na planta da BMW em Spartanburg, na Carolina do Sul. Durante 11 meses, os robôs focaram em uma tarefa de manufatura automotiva: remover peças de chapa de metal de racks ou bins e posicioná-las em dispositivos de solda para a produção do BMW X3.

Segundo reportagem da Ars Technica, os robôs trabalharam em turnos de 10 horas, de segunda a sexta-feira, e supostamente contribuíram para a produção de 30.000 veículos BMW X3. É um contexto industrial real — com ritmo, temperatura e exigências que simulam o ambiente que um humano enfrentaria. A tarefa de solda é particularmente exigente em velocidade e precisão, o que torna o resultado relevante para avaliar a viabilidade prática dos humanoides.

Financiamento de US$ 2 bilhões

A Figure AI arrecadou quase US$ 2 bilhões em capital de risco desde sua fundação. A rodada Series B, em fevereiro de 2024, levantou US$ 675 milhões com participação de Jeff Bezos, Microsoft, Nvidia, Intel, Amazon e OpenAI, avaliando a empresa em US$ 2,6 bilhões. Em setembro de 2025, a Series C ultrapassou US$ 1 bilhão, elevando a avaliação para US$ 39 bilhões, com investidores incluindo Brookfield Asset Management, Qualcomm, Salesforce e T-Mobile.

Para colocar em perspectiva: uma empresa de robótica fundada há quatro anos, com valuation de US$ 39 bilhões e parceria de produção com a BMW. Os investidores não estão apostando em demos — estão apostando que humanoides vão se tornar infraestrutura industrial.

Ceticismo e limitações

Nem toda a reação ao livestream foi entusiasmada. Espectadores notaram momentos em que os robôs pareciam ter dificuldades — dropping pacotes, repetindo tentativas frustradas de pegar objetos, ou gesticulando no vazio. Alguns questionaram se a operação era realmente autônoma. A ausência de verificação independente no local dificulta a confirmação total.

Há um precedente legítimo para o ceticismo: a Tesla, por exemplo, usou teleoperadores humanos em várias demonstrações do Optimus. A própria Ars Technica aponta que demonstrações de robótica, mesmo as mais impressionantes, representam “janelas estreitas” para entender capacidades reais. A tarefa demonstrada — inspecionar códigos de barras e mover pacotes para uma esteira — é repetitiva e confinada a um cenário específico. Não é o mesmo que um robô de propósito geral navegando um ambiente imprevisível.

Mesmo assim, há uma diferença qualitativa entre um vídeo editado de dois minutos e um livestream de 200 horas. A transmissão contínua permite que espectadores vejam falhas e acertos em tempo real, o que confere uma camada de transparência que demos gravados não oferecem. E o fato de que a BMW confiou nos robôs em uma linha de produção real por 11 meses adiciona peso ao argumento de que a tecnologia já saiu do laboratório.

O que vem depois

A Figure AI é uma entre várias empresas apostando em humanoides como trabalhadores de propósito geral — Agility Robotics, Boston Dynamics e Tesla estão na mesma corrida. A questão central não é mais se humanoides podem realizar tarefas em ambientes controlados — o demo de maio de 2026 mostrou que podem. A questão é custo-benefício: se um robô de US$ 100.000 (estimativa de mercado) pode ser mais barato que um trabalhador humano com salário, benefícios e turnover.

O resultado da competição humano x robô — com margem de apenas 1,5% para o lado humano — sugere que o cruzamento de viabilidade econômica está mais próximo do que muitos imaginavam. Quando o robô passar o humano em ritmo, e os custos de produção caírem com a fabricação em escala na BotQ (a fábrica da própria Figure projetada para produzir 12.000 humanoides por ano), o cálculo muda.

O livestream de maio de 2026 provavelmente será lembrado como o momento em que humanoides deixaram de ser promessa de laboratório e se tornaram algo que você pode assistir funcionando ao vivo, por 200 horas seguidas, sem alguém no controle.

FAQ

O que é a Figure AI?

Uma empresa americana de robótica fundada em 2022 por Brett Adcock, sediada em San Jose, Califórnia. Desenvolve robôs humanoides com inteligência artificial para trabalhos industriais e logísticos. Já levantou quase US$ 2 bilhões e é avaliada em US$ 39 bilhões.

O que é o Helix 02?

É o modelo de visão-linguagem-ação (VLA) da Figure AI, lançado em janeiro de 2026. Diferente de modelos de linguagem tradicionais, o Helix 02 controla o corpo inteiro do robô e roda inteiramente no hardware onboard — sem depender de nuvem. Foi treinado com mais de 1.000 horas de dados de movimento humano e 200.000 ambientes de simulação.

O robô realmente venceu o humano?

Não. O estagiário Aimé Gérard venceu por margem estreita: 12.924 pacotes contra 12.732 do robô em 10 horas de competição. A diferença foi de 192 pacotes — menos de 1,5%. O CEO da Figure AI previu que essa seria a última vez que um humano ganharia.

Os robôs operam de forma autônoma?

A Figure AI afirma que sim. Todo o processamento de IA acontece no hardware de cada robô, sem teleoperadores. Mas a ausência de verificação independente in loco means que essa afirmação não pode ser totalmente confirmada por terceiros.

Qual a diferença entre Figure 02 e Figure 03?

O Figure 02 (agosto de 2024) tem 35 graus de liberdade, mãos com 16 DOF cada, seis câmeras e 3x mais poder computacional que o Figure 01. O Figure 03 (outubro de 2025) adiciona câmeras mais rápidas, sensores táteis nas pontas dos dedos, carregamento sem fio por indução e materiais flexíveis para segurança.

Referências