Scorsese Abraça IA, Hollywood se Divide: Fim de uma Era?

Martin Scorsese, 83 anos, o homem que fez Taxi Driver, Goodfellas e The Irishman, anunciou em 2 de junho de 2026 que é agora conselheiro da Black Forest Labs, startup alemã de inteligência artificial especializada em gerar imagens a partir de texto. A notícia caiu como uma bomba em Hollywood e dividiu o cinema entre quem vê evolução e quem vê traição.

Os factos concretos

Scorsese não apenas emprestou o nome. Ele estrelou um vídeo produzido pela Black Forest Labs no qual demonstra, no seu escritório em Nova York, como utiliza o modelo FLUX para criar storyboards do seu próximo filme: What Happens at Night, um drama com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence sobre um casal que viaja a uma pequena cidade europeia para adotar uma criança.

No vídeo, Scorsese referencia o famoso plano-sequência da Copacabana em Goodfellas — aquele que segue Henry Hill pelo restaurante numa tomada contínua — e explica como ferramentas como o FLUX poderiam comprimir o processo de preparação visual que sequências tão intrincadas exigem. “Se você tem uma ferramenta como esta, consegue resolver muito mais rápido e poupar tempo de produção, e também menos desgaste para a equipa”, afirmou.

A Black Forest Labs foi fundada em agosto de 2024 em Friburgo, Alemanha, por Robin Rombach, Andreas Blattmann e Patrick Esser — três investigadores que antes criaram o Stable Diffusion na Stability AI. A startup desenvolve a família de modelos FLUX, que já alimenta a geração de imagens em plataformas como o pacote criativo da Adobe, o chatbot Grok de Elon Musk e a ElevenLabs. Em dezembro de 2025, a empresa levantou 300 milhões de dólares numa Series B co-liderada pela Salesforce Ventures, com participação da Andreessen Horowitz, NVIDIA, General Catalyst, Temasek, Canva e Figma. Avaliação: 3,25 mil milhões de dólares.

Scorsese e a evolução

Scorsese enquadrou a adoção da IA nos seus próprios termos: evolução, não capitulação. Disse que desenha os seus próprios storyboards há sete décadas e identificou um problema criativo persistente — a distância entre o que o realizador vê na cabeça e o que a equipa compreende.

“O cinema é um meio jovem, tem apenas cerca de 125 anos, por isso temos de estar abertos à forma como pode evoluir. Utilizei 3D em Hugo e tecnologia de rejuvenescimento em The Irishman. Agora, com esta ferramenta, posso partilhar o que estou a visualizar de forma mais clara e eficiente com a minha equipa criativa.”

Há uma lógica prática no argumento. O storyboard tradicional, desenhado à mão, transmite composição mas raramente capta luz, textura ou detalhe de época com precisão suficiente para um designer de produção construir a partir dele. A geração de imagens por IA comprime essa distância — uma descrição verbal ou gestual do realizador pode render uma imagem fotorrealista de referência em segundos em vez de horas.

A ligação entre Scorsese e a Black Forest Labs não foi acidental. A BroadLight Capital — firma de investimentos cofundada por Rick Yorn, empresário de longa data de Scorsese — é investidora da BFL. Michael Ovitz, cofundador da CAA em 1975 e investidor-anjo na startup, também intermediou a parceria, segundo o New York Times. Se Scorsese tem participação financeira direta na empresa, não foi confirmado; a Black Forest Labs não confirmou nem negou.

Boots Riley dispara

A reação mais incisiva veio de Boots Riley, realizador de Sorry to Bother You e I Love Boosters. Num fio no X (antigo Twitter), Riley foi direto:

“O meu palpite: aos 83 anos, deram à família dele uma data de dinheiro (eles atiram dezenas de milhões para a esquerda e para a direita), ele queria o fluxo de rendimento para eles e sente que a IA vai cair de qualquer forma, por isso não dá a mínima. Se não for esse o caso, foda-se extra.”

Riley foi além. Disse que o seu problema não é Scorsese usar a ferramenta, mas sim promovê-la. “Para ser claro, o meu vitríolo não é sobre ele usar, eu provavelmente apenas torceria o nariz privadamente. É sobre ele usar o seu prestígio para promover isto e tentar empurrar a indústria nessa direção. Eles precisam dele. Um bilião gasto em IA generativa e ainda não salvou ninguém nem mudou o cinema.”

A crítica de Riley toca num nervo central: o endosso de Scorsese não é um realizador qualquer a experimentar uma ferramenta nova. É um dos maiores nomes vivos do cinema a dar legitimidade pública a uma startup avaliada em mais de 3 mil milhões de dólares. O peso simbólico é imenso.

Seth Rogen não manda recados

Seth Rogen, que em Cannes 2026 promovia o seu filme de animação Tangles — desenhado à mão, quadro a quadro —, já tinha sido claro sobre a IA antes do anúncio de Scorsese. Falando ao canal Brut no festival, Rogen não pouparam palavras:

“Não percebo o que a IA supostamente faz. Sempre que vejo um vídeo no Instagram a dizer ‘Hollywood está acabada’, o que se segue é a maior merda estúpida que já vi na vida. E se o teu instinto é usar IA e não passar por esse processo, não devias ser escritor. Porque não estás a escrever. Vai fazer outra coisa.”

Rogen é consistente: Tangles é animação tradicional, cada quadro tem toque humano. A sua posição não é ambígua — a IA não é ferramenta, é atalho, e atalhos destroem o ofício. Quando a entrevistadora comentou que estava feliz por não haver IA no filme, Rogen respondeu: “De todo. É animação desenhada à mão. Cada quadro tem um toque humano, o que é ótimo.”

O contraste entre Rogen e Scorsese revela duas visões de cinema que, ironicamente, ambos amam. Para um, a tecnologia é meio; para o outro, o processo é fim em si mesmo.

A divisão em Hollywood

O caso Scorsese não é um incidente isolado. É o ponto de viragem de um debate que vinha escalando há meses e que agora tem rostos e nomes em cada lado.

Mapa de posições: quem defende o quê

RealizadorPosição sobre IAAção concreta (2024–2026)
Martin ScorseseFavorável (ferramenta)Conselheiro da Black Forest Labs; usa FLUX em pré-produção
James CameronFavorável (ferramenta)Membro do conselho da Stability AI (set 2024)
Gareth EdwardsFavorável (ferramenta)Defendeu IA no “AI on the Lot” (mai 2026)
Peter JacksonNeutro/pragmáticoChamou IA de “apenas um efeito especial” em Cannes (mai 2026)
Demi MoorePragmáticaDisse que resistir “é uma batalha perdida” (Cannes 2026)
Seth RogenContrárioChamou IA de “merda estúpida”; contra uso em escrita (Cannes 2026)
Guillermo del ToroFirmemente contra“Preferia morrer” a usar IA; “cuspir em Deus” (out 2025)
Boots RileyContrário (comércio)Criticou Scorsese por promover IA no X (jun 2026)

Guillermo del Toro, realizador de O Labirinto do Fauno, é talvez o opositor mais veemente. Em outubro de 2025, disse à Hollywood Reporter que usar IA no início de um projeto criativo seria “como cuspir em Deus”, e depois declarou a um entrevistador que preferia “morrer” a usar IA generativa nos seus filmes. Condenou a mudança como uma era em que alguns acreditam que “a arte pode ser feita com uma aplicação de merda”.

Do outro lado, Demi Moore, membro do júri de Cannes 2026, adotou uma postura pragmática: “Resistir à IA é uma batalha que vamos perder, por isso encontrar formas de trabalhar com ela, acho que é um caminho mais valioso.”

O próprio festival de Cannes cristalizou a tensão institucional: baniu IA generativa da Competição Oficial. Semanas depois, o festival Tribeca fará o oposto — estreará Dreams of Violets, uma docuficção de 75 minutos inteiramente gerada por IA, sem câmaras, atores ou cenários físicos, realizada por Ash Koosha e produzida por cerca de 2.000 dólares.

Se Hollywood estava dividida antes de junho de 2026, agora a fissura tem nome, rosto e consequências reais. Não é mais um debate teórico — é uma escolha prática que cada realizador, cada estúdio, cada artista vai ter de fazer. E quando startups de IA valem mais que países inteiros, a pressão económica é descomunal.

O que está em jogo

A aplicação específica que Scorsese defende — usar IA generativa para produzir referências visuais durante a pré-produção — situa-se no que muitos na indústria consideram o ponto de entrada mais defensável da IA. Diferente da pós-produção ou captura de performance, onde a IA toca na obra final que o público vê, o storyboard e a pré-visualização são fases de planeamento. O resultado não aparece no ecrã.

É um argumento sedutor, mas não convence toda a gente. Karla Ortiz, artista conceptual cujos créditos incluem Rogue One, Thor: Ragnarok, Black Panther e Doctor Strange — e que testemunhou perante o Senado dos EUA sobre IA e propriedade intelectual —, escreveu no X que Scorsese “atira todos os artistas de storyboard com quem alguma vez trabalhou debaixo do autocarro, ao demolir os seus meios de subsistência com modelos que provavelmente foram treinados nas obras desses mesmos artistas.”

O realizador e animador Sam Deats foi igualmente direto: “Leva literalmente segundos para eu fazer o storyboard de um plano, não há absolutamente nenhuma razão para precisar de IA construída sobre o trabalho roubado de milhões de artistas para fazer o storyboard da tua visão. Tenha algum orgulho e respeite os seus pares.”

A Sociedade de Autores do Reino Unido encontrou que cerca de 25% dos ilustradores reportaram ter perdido trabalho para IA generativa num inquérito de 2024. Os dados não mentem: o impacto económico é real, e os primeiros a sofrer são os artistas menos visíveis — aqueles cujo trabalho acontece nos bastidores e que raramente sobem ao palco para receber um prémio.

Padrão ou exceção?

O Forbes publicou em 5 de junho uma análise que captura bem a tensão: Scorsese pode criar um novo padrão de adoção de IA em Hollywood, mas esse padrão pode não pegar. A lógica é simples. O que funciona para Scorsese — um realizador com 83 anos, prestígio incomparável e orçamentos enormes — não necessariamente se aplica a um realizador independente com uma equipa de cinco pessoas e um orçamento de 50 mil dólares.

Scorsese pode usar o FLUX porque quer e pode pagar. Mas a normalização do seu uso tem efeitos cascata. Se o realizador mais respeitado do mundo diz que a IA é legítima, torna-se mais difícil para os outros recusarem. E quando a Microsoft lança sete modelos próprios de IA e cada gigante tecnológica investe biliões, a pergunta não é se a IA chega a Hollywood, é em que velocidade e com que consequências.

O New York Times descreveu o momento como Hollywood a atingir o “ponto de viragem” na aceitação da IA. Não é exagero. Cameron no conselho da Stability AI. Scorsese como conselheiro da Black Forest Labs. Gareth Edwards a descrever a IA como o futuro. A questão não é mais se a indústria vai adotar a tecnologia, mas sim como vai regular essa adoção e quem vai ser protegido — ou esquecido — no processo.

Para Scorsese, a posição é clara: a tecnologia é uma ferramenta, não um substituto. Mas a história recente da tecnologia mostra que as ferramentas raramente permanecem apenas ferramentas. Começam como auxílios e terminam como infraestrutura. O storyboard de hoje pode ser o guion de amanhã, a cena de amanhã, o filme de depois de amanhã. A automação já é o centro de comando de novos fluxos criativos. Onde pára a linha? Quem a desenha?

O que muda para nós

Para o público brasileiro e para quem acompanha cultura e tecnologia, o caso Scorsese é especialmente relevante por uma razão: ele simboliza a tensão que vai definir a próxima década criativa em todo o mundo, não apenas em Hollywood.

Artistas brasileiros já enfrentam o mesmo dilema. Ilustradores, argumentistas, designers e realizadores independentes veem o seu trabalho ameaçado por ferramentas que foram treinadas, em muitos casos, sobre as suas próprias obras sem consentimento ou compensação. Quando Scorsese normaliza o uso dessas ferramentas, o efeito não se limita a Los Angeles — ecoa em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Recife.

A pergunta que fica não é se Scorsese tem razão ou não. É se a indústria está preparada para as consequências da normalização que ele acaba de tornar muito mais provável. Os nomes envolvidos são grandes. Os valores, maiores ainda. Mas as pessoas cujos empregos estão em risco — os artistas de storyboard, os ilustradores conceptuais, os técnicos de pré-visualização — não têm 3 mil milhões de dólares em avaliação nem o brasão de um gestor como Rick Yorn a abrir portas.

É fácil ser pragmático quando se tem 83 anos e nada a perder. É muito mais difícil quando se tem 30, uma carreira pela frente e uma startup bilionária a dizer que a sua arte pode ser gerada por um modelo em segundos.

Perguntas frequentes

O que é a Black Forest Labs?

A Black Forest Labs é uma startup alemã de IA fundada em agosto de 2024 em Friburgo por três ex-pesquisadores da Stability AI: Robin Rombach, Andreas Blattmann e Patrick Esser. Desenvolve a família de modelos FLUX, que gera imagens fotorrealistas a partir de descrições textuais. Os modelos FLUX alimentam plataformas como Adobe, Grok (Elon Musk) e ElevenLabs. A empresa levantou mais de 450 milhões de dólares no total, incluindo uma Series B de 300 milhões em dezembro de 2025, atingindo uma avaliação de 3,25 mil milhões de dólares.

Como Scorsese está a usar a IA?

Scorsese utiliza o modelo FLUX da Black Forest Labs para criar storyboards e referências visuais durante a pré-produção do seu próximo filme, What Happens at Night, com Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrence. As imagens geradas por IA não aparecem no filme final — servem como ferramenta de comunicação visual entre o realizador e a equipa técnica (designer de produção, diretor de arte, diretor de fotografia).

Por que os artistas estão a criticar?

Os críticos levantam duas questões principais. Primeiro, económica: a IA substitui o trabalho remunerado de artistas de storyboard e conceito. Cerca de 25% dos ilustradores no Reino Unido já reportaram perda de trabalho para IA generativa. Segundo, ética e legal: os modelos de IA são treinados em conjuntos massivos de imagens recolhidas da internet sem consentimento dos artistas originais. A artista conceptual Karla Ortiz apontou que os modelos que Scorsese usa “provavelmente foram treinados nas obras” dos próprios artistas que agora perdem trabalho.

Quais realizadores estão contra a IA?

Guillermo del Toro é o mais veemente: disse que usar IA num projeto criativo seria “como cuspir em Deus” e que preferia morrer a usá-la. Seth Rogen chamou o conteúdo gerado por IA de “a maior merda estúpita que já vi” e afirmou que quem usa IA para escrever “não devias ser escritor”. O festival de Cannes baniu IA generativa da sua Competição Oficial em 2026. James Cameron, no entanto, está no conselho da Stability AI, e Gareth Edwards defende a IA como ferramenta criativa.

Fontes verificadas