SpaceX, OpenAI, Anthropic: IPOs Que Valem Mais Que a França

O cenário inédito de Wall Street

Em 1.º de junho de 2026, a Anthropic registrou confidencialmente seu formulário S-1 na SEC, dando o primeiro passo oficial rumo a um IPO que pode ultrapassar US$ 900 bilhões. Menos de duas semanas antes, a SpaceX havia publicado seu próprio S-1 mirando uma valuation de até US$ 2 trilhões. A OpenAI registrou seu pedido confidencial no dia 22 de maio. Juntas, as três empresas buscam uma valuation combinada de US$ 3,6 trilhões — mais do que o PIB da França. Nenhuma delas é lucrativa.

O primeiro trimestre de 2026 levantou US$ 42,6 bilhões em 251 IPOs globalmente, um aumento de 45% em relação ao ano anterior. Mas esses números vão parecer pequenos diante do que vem aí. Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley lideram um sindicato de 21 bancos para a oferta da SpaceX sozinha.

SpaceX: o maior IPO da história

A SpaceX publicou seu S-1 em 20 de maio de 2026, revelando planos de levantar cerca de US$ 75 a 80 bilhões — o maior IPO já realizado. A empresa busca uma valuation entre US$ 1,75 trilhão e US$ 2 trilhões, com estreia prevista para cerca de 12 de junho na Nasdaq sob o ticker SPCX.

A única divisão lucrativa da empresa é a Starlink, o serviço de internet via satélite que faturou US$ 11,4 bilhões em 2025, com US$ 4,4 bilhões de lucro operacional e mais de 10 milhões de assinantes em 160 países. O problema é que a receita média por assinante caiu de US$ 99/mês em 2023 para US$ 66/mês no primeiro trimestre de 2026 — uma queda de 33% em dois anos.

A fusão com a xAI em fevereiro de 2026 complicou o quadro. A divisão de IA consumiu cerca de US$ 14 bilhões em caixa contra apenas US$ 3,2 bilhões em receita, contribuindo para um prejuízo líquido combinado de US$ 4,94 bilhões. A SpaceX pede ao mercado um múltiplo de receita de 91x a 107x — mais de quatro vezes o prêmio da Nvidia, que é massivamente lucrativa.

Elon Musk detém aproximadamente 42% do capital, mas controla 85,1% dos votos graças a uma estrutura de classes duplas. O próprio S-1 alerta: “Isso limitará ou impedirá sua capacidade de influenciar assuntos corporativos e a eleição de nossos diretores.”

Anthropic entrou na corrida

Uma semana depois de levantar US$ 65 bilhões em uma rodada Series H que elevou sua valuation para US$ 965 bilhões, a Anthropic registrou confidencialmente seu S-1. Diferente de suas concorrentes, a empresa tem uma trajetória financeira mais promissora: sua receita anualizada saltou de US$ 9 bilhões no final de 2025 para mais de US$ 44 bilhões em maio de 2026.

Cerca de 80% da receita da Anthropic vem do mercado corporativo — o dobro da OpenAI. No primeiro trimestre de 2026, a empresa liderou o mercado global de receita de LLMs com 31,4%, contra 29% da OpenAI. A Anthropic projeta seu primeiro lucro operacional no segundo trimestre de 2026, cerca de US$ 559 milhões, com ponto de equilíbrio total previsto para 2028 — dois anos antes da OpenAI.

A empresa também provocou um efeito cascata no mercado de software corporativo. Após o lançamento do Claude Cowork e Claude Code, empresas como Salesforce e ServiceNow perderam cerca de um terço de seu valor de mercado em 2026. A Wired descreveu o pedido como o que pode ser o maior IPO da história.

OpenAI prepara sua vez

A OpenAI registrou seu S-1 confidencialmente em 22 de maio de 2026, com estreia prevista para o quarto trimestre. A empresa foi avaliada em US$ 852 bilhões após uma rodada de US$ 122 bilhões em março, e traders estimam 65% de probabilidade de que suas ações fechem o primeiro dia de negociação acima de US$ 1,4 trilhão.

Os números são impressionantes e preocupantes ao mesmo tempo. O ChatGPT alcançou 900 milhões de usuários semanais, mas estagnou abaixo das metas internas. A receita anualizada supera US$ 20 bilhões, impulsionada por assinaturas corporativas e uso de API. O problema: a empresa projeta um prejuízo de US$ 14 bilhões em 2026.

A governança também levanta questões. A OpenAI se converteu de organização sem fins lucrativos para Public Benefit Corporation no final de 2025. Uma fundação separada sem fins lucrativos mantém uma participação avaliada em cerca de US$ 130 bilhões. E o patrimônio do CEO Sam Altman aparece como “a definir” — o líder de uma empresa de US$ 1 trilhão pode não ter participação confirmada.

Nenhuma das três dá lucro

Este é o parágrafo que mais surpreende quem acompanha de fora. Três empresas que juntas valem mais que o PIB de países inteiros ainda não conseguem fechar as contas no azul.

EmpresaValuation alvoReceita (2025)Lucro?Múltiplo de receita
SpaceXUS$ 1,75T – 2TUS$ 18,7BPrejuízo de US$ 4,94B (com xAI)91x – 107x
OpenAIUS$ 852B – 1TUS$ 13,1BPrejuízo projetado de US$ 14B (2026)65x – 76x
Anthropic~US$ 900B~US$ 4,5BPrimeiro lucro operacional est. Q2 2026~20x (run-rate)

Para contexto, a Nvidia, a mais cara das “Magnificent Seven” por múltiplo de receita, negocia a cerca de 21x as vendas — e é massivamente lucrativa. A SpaceX pede mais de quatro vezes esse prêmio com prejuízos crescentes. Como analisa a INDmoney: “Você não está comprando uma loja que ganha 100 por dia e pode ganhar 500 em cinco anos. Está comprando um título de terra numa cidade que ainda não foi construída.”

O efeito dominó no mercado

As três ofertas juntas podem levantar mais de US$ 200 bilhões dos mercados públicos. Para ter perspectiva: todo o mercado de IPOs dos EUA em 2025 levantou apenas US$ 45 bilhões. Cerca de US$ 8 trilhões estão depositados em fundos do mercado monetário americano. Os US$ 75 bilhões da SpaceX representam cerca de 1% desse total.

O impacto não se limita aos IPOs em si. Há um risco real de deslocamento: o dinheiro que vai para essas ofertas provavelmente sai de posições existentes nas “Magnificent Seven”. Mesmo investidores que não compram nenhum dos três IPOs podem sentir o vento contrário. A recente decisão da Robinhood de permitir que agentes de IA negociem ações é um sinal de como a IA está redesenhando o próprio mercado financeiro.

A Anthropic já provocou um reprice no setor de software corporativo. Depois do lançamento do Claude Cowork, Salesforce e ServiceNow perderam cada uma cerca de um terço do valor de mercado em 2026. Thomson Reuters, RELX e FactSet também foram afetados por preocupações de disrupção por IA. O mercado está precificando uma mudança estrutural, não apenas um ciclo de notícias.

Riscos reais para investidores

Além dos prejuízos, cada empresa carrega riscos de governança significativos. Na SpaceX, Musk controla 85,1% dos votos com 42% do capital — a empresa se qualifica como “controlled company”, isenta da exigência de diretoria independente majoritária. Na OpenAI, a estrutura de benefício público e a participação do CEO são pontos nebulosos.

Há também o risco histórico. Das cinco maiores IPOs da história moderna, quatro negociaram abaixo do preço de oferta após 12 meses. O mercado de IA pode ser diferente, mas não há garantia. Como observou o New York Times em análise publicada em 29 de maio, preços de IPO tão elevados raramente beneficiam investidores comuns.

Microsoft, que investiu na OpenAI quando a empresa valia US$ 1 a 2 bilhões, vê agora seu investimento marcado entre US$ 852 bilhões e US$ 1 trilhão — um múltiplo de 500x a 850x. Google, que investiu na Anthropic em 2023 com valuation de US$ 5 bilhões, agora mira um retorno de cerca de 180x. O IPO é o momento em que os investidores iniciais convertem ganhos não realizados em caixa líquido — e os investidores públicos fornecem a liquidez de saída.

O que muda para o Brasil

Para o ecossistema brasileiro de tecnologia, o impacto é duplo. Primeiro, a validação dessas valuations reescreve as expectativas para startups de IA globalmente. Segundo o Stanford AI Index 2026, a corrida por investimentos em IA está concentrada em pouquíssimas empresas — e o Brasil ainda é coadjuvate nesse cenário. Se a Anthropic vale US$ 965 bilhões com foco em enterprise, startups brasileiras que servem o mercado corporativo ganham um novo parâmetro de referência.

Segundo, a disrupção no software corporativo não fica restrita a Wall Street. Ferramentas como Claude Cowork e os agentes de IA da OpenAI já competem diretamente com plataformas que empresas brasileiras usam diariamente. O custo de software tende a cair. A produtividade individual tende a subir. O desafio é saber se profissionais e empresas no Brasil vão adotar essas ferramentas rápido o suficiente.

Há também o aspecto regulatório. Enquanto os EUA debatem oversight de modelos de fronteira — o Trump assinou em 2 de junho uma executive order pedindo revisão voluntária de novos modelos por até 30 dias antes do lançamento público — o Brasil ainda constrói seu marco regulatório. A diferença de ritmo entre os dois países pode ampliar ou reduzir a competitividade da economia brasileira na era da IA.

Referências